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24/02/2017 - 12:28

Artigo: Boate Kiss

Tragédia em Santa Maria/RS que comoveu o país é tema da primeira entrevista da edição 36.4 da Revista Psicologia: Ciência e Profissão

Há quatro anos, um incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, cidade do interior do Rio Grande do Sul, durante uma festa de estudantes universitários, chocou o Brasil e o mundo com a morte de 241 pessoas. O trágico episódio também demonstrou o descaso do poder público e dos próprios donos da casa de diversão com as medidas de segurança. Diante de um evento crítico desta magnitude, um grupo interdisciplinar de profissionais foi escalado para traçar uma estratégia de saúde mental e atenção psicossocial voltada aos sobreviventes e familiares da tragédia.

No artigo desta semana Estratégia de Saúde Mental e Atenção Psicossocial para Afetados da Boate Kiss, oito pesquisadoras analisam essa experiência e descrevem as medidas adotadas, de forma articulada e sustentável, para garantir o bem-estar psicossocial das vidas atingidas pelo incêndio. O texto publicado na edição 36.4 da Revista Psicologia: Ciência e Profissão é assinado por: Débora da Silva Noal (doutoranda em Processos do Desenvolvimento Humano e Saúde pela Universidade de Brasília – UnB); Letícia Nolasco Vicente (especialista pelo Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo – SP); Ana Cecília Andrade de Moraes Weintraub (doutoranda em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano da Universidade de São Paulo – USP); Sandra Maria Sales Fagundes (mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS); Károl Veiga Cabral  (doutora em Antropologia Médica e Saúde Internacional pela Universitat Rovira i Virgili, Espanha); Ana Carolina Rios Simoni (doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS); Maria Luiza Leal Pacheco (mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC/RS); Regina Lucia Sucupira Pedroza (doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília – UnB); e Lucia Helena Cavasin Zabotto Pulino (doutora em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e docente na Universidade de Brasília – UnB).

O CFP publica em seu site e nas redes sociais, todas as semanas, um artigo do periódico – cuja versão eletrônica se encontra na plataforma SciELO. Assim, a autarquia intensifica a busca pelo conhecimento científico e o alcance de conteúdos acadêmicos para a categoria e para o conjunto da sociedade. 

Estratégias

O artigo inicia com a descrição da rede pública de Atenção Psicossocial do município de Santa Maria na época do incêndio. Na sequência, usando métodos qualitativos de pesquisa, as autoras analisam as medidas tomadas nas primeiras 24 horas após o evento e as estratégias elaboradas para os meses subsequentes. Dados e referências do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (SINPDEC) são utilizados para contextualizar o panorama nacional no momento da intervenção.

Na avaliação das autoras, as ações elaboradas como resposta foram estruturadas de forma condizente com as necessidades psicossociais do público-alvo, bem como com as diretrizes e políticas nacionais e internacionais, enfocando a criação de uma estratégia articulada e sustentável de curto e médio prazo, visando o bem-estar psicossocial dos afetados.

Em entrevista para Assessoria de Comunicação do CFP, a pesquisadora Débora da Silva Noal apresenta mais detalhes da pesquisa.

O que as motivou a fazer a pesquisa sobre esse tema? 

A motivação é oriunda das discussões que tecemos desde que o evento crítico aconteceu na cidade de Santa Maria, bem como do trabalho que desempenhamos em torno deste tema, no cuidado direto, na gestão e na academia. Fomos percebendo que, embora abordado recorrentemente pela sociedade, a atenção à saúde mental de pessoas afetadas por incidentes críticos ainda é um assunto pouco estudado e analisado por pesquisadores brasileiros, em particular sob o viés da saúde pública nos moldes do Sistema Único de Saúde (SUS).

Vale lembrar que este artigo é fruto da análise do trabalho que desenvolvemos na cidade de Santa Maria, logo nas primeiras 24 horas até o fim dos primeiros três meses. Compartilhar a experiência produzida no âmbito das ações implementadas na ocasião, por um lado, tem a ver com um compromisso com a construção do conhecimento no campo das políticas públicas e, por outro, com uma ética da responsabilidade.

A estratégia de atenção psicossocial desenhada para acolher e acompanhar as pessoas afetadas pelo incêndio da Boate Kiss em Santa Maria trouxe, para este campo de intervenção, elementos novos, além de reafirmar a importância de metodologias já consolidadas. Nosso intuito é apresentar e analisar a estratégia elaborada de apoio psicossocial e de saúde mental, bem como fazer uma análise deste trabalho para entender as especificidades de uma estratégia deste porte, contribuindo para futuras intervenções de psicólogos (as) e outros atores em contextos semelhantes.

Quais os resultados que você destaca desse levantamento?

Destacamos a importância crucial desta estratégia ter levado em conta o trabalho articulado no nível loco-regional e o delineamento da avaliação sistemática envolvendo os três entes federados. Ressaltamos que as atividades e ações elaboradas como resposta foram por nós avaliadas como estruturadas de forma condizente com as necessidades psicossociais da população afetada, bem como com as diretrizes e políticas (inter) nacionais, ao enfocar a criação de uma estratégia articulada,  sustentável a curto e médio prazo, pelo constante trabalho de constituição de redes de promoção da saúde e  bem-estar psicossocial para o público alvo.

Na sua opinião, qual a importância da Psicologia para o trabalho articulado no nível loco-regional e o delineamento da avaliação sistemática envolvendo os três entes federados em eventos críticos?

A Psicologia, assim como as políticas públicas, desenvolve seus conceitos, diretrizes e perspectivas no nível loco-regional, uma vez que é neste âmbito que a vida acontece. Cabe ressaltar que, ainda que a ação e articulação dos três entes federados seja imprescindível para a elaboração de estratégias de intervenção compatíveis com as demandas pós-eventos críticos, é no município que o evento e seus desdobramentos tomam forma; é nele que as políticas públicas e a estratégia afetam diretamente a população. Portanto, neste espaço que acontecerá o cuidado das pessoas afetadas  e as estratégias implementadas demonstrarão a sua eficácia e suas fragilidades.

A Psicologia se torna importante sempre que aporta, nestes contextos de intervenção, ferramentas contextualizadas às especificidades do território, numa perspectiva da atenção longitudinal e de fortalecimento dos atores locais. Da mesma forma, a Psicologia pode ser importante na construção de desenhos de avaliação sistemática cujos contornos respeitam os contextos em que se forjaram. A Psicologia se fará importante sempre que levar em conta estes aspectos, na direção do protagonismo local, da intersetorialidade das ações e do trabalho em rede.

Clique aqui e leia o artigo na íntegra.