O Conselho Federal de Psicologia (CFP) afirmou, em audiência pública na Câmara dos Deputados, que o adoecimento mental produzido pelas condições de trabalho no Brasil não é problema individual – e que a escala 6×1 é expressão coerente de uma formação econômica historicamente estruturada sobre a superexploração do trabalho. A participação ocorreu no dia 18 de maio, na Comissão Especial sobre o Fim da Escala 6×1, e foi elogiada publicamente pelo deputado Alencar Santana (PT-SP), presidente da comissão.
A conselheira vice-presidenta Thessa Guimarães foi direta ao nomear o contexto histórico: “O Conselho Federal de Psicologia entende que nenhuma política séria de saúde mental pode ignorar os impactos produzidos pelas formas contemporâneas de organização do trabalho. As pessoas não podem ser penalizadas individualmente por condições socialmente estabelecidas no contexto de um país escravagista.”
A afirmação tem respaldo na literatura da economia política latinoamericana, que identifica na superexploração da força de trabalho — jornadas longas, baixos salários, ausência de proteção social — um traço estrutural das economias dependentes como a brasileira, aprofundado nas últimas décadas pelas reformas trabalhista e previdenciária e pela expansão das plataformas digitais.
A conselheira destacou que psicólogas e psicólogos de todo o País relatam diariamente os efeitos desse modelo: depressão, ansiedade e risco cardiovascular são os quadros mais frequentes associados a jornadas extensas, segundo a Psicologia do Trabalho. “Seis dias para o trabalho e um dia para o suposto descanso é submeter o conjunto da classe trabalhadora à sobrevivência, sem a possibilidade de fruir da existência humana, de cuidar da própria família”, disse.
O CFP também ressaltou que o próprio Congresso Nacional reconheceu recentemente que jornadas excessivas produzem dano – ao aprovar a redução da jornada das psicólogas para 30 horas semanais, proposta que segue em tramitação no Senado. Para o Conselho, o princípio que fundamenta essa decisão não pode ser ignorado para o conjunto da classe trabalhadora. A vice-presidenta foi categórica: “Esperar que a Psicologia trate o adoecimento sem o enfrentamento de suas causas estruturais – não vai acontecer”.
Aprovação na Câmara dos Deputados
Nessa quarta-feira (27) a Câmara dos Deputados aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece jornada de trabalho de 40 horas semanais em cinco dias com dois de descanso, acabando com a escala 6 X 1. O texto prevê uma transição e leis específicas para tratar de algumas carreiras. Agora, a proposta será analisada pelo Senado Federal.
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