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28/05/2026 - 18:45

Psicologia e Mulheridades: seminário nacional em Cuiabá debate cuidado voltado às existências plurais

Iniciativa do CFP em parceria com o CRP-MT reuniu profissionais para qualificar a atuação ética, científica e profissional frente às múltiplas experiências de gênero, reafirmando o compromisso da categoria com a justiça social e a promoção de direitos

Fonte: Gerência de Comunicação (GCom)
Psicologia e Mulheridades: seminário nacional em Cuiabá debate cuidado voltado às existências plurais

Romper com perspectivas hegemônicas e tensionar bases eurocêntricas para construir uma Psicologia que faça sentido no chão do território brasileiro, enquanto alicerce para uma atuação ética e científica na superação das violências de gênero. Esse foi o eixo orientador do 1º Seminário Nacional Psicologia e Mulheridades, realizado entre 8 e 9 de maio, em Cuiabá/MT, pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) por meio da Comissão de Direitos Humanos (CDH), em parceria com o Conselho Regional de Psicologia de Mato Grosso (CRP-MT).

O evento buscou qualificar a escuta e a intervenção profissional para que o cuidado psicológico diante das múltiplas experiências de ser mulher seja, cada vez mais, um instrumento de promoção da vida e dos direitos.

A presidenta do CFP, Ivani Oliveira, destacou que, como profissão exercida majoritariamente por mulheres, que representam cerca de 89% da categoria, existe uma responsabilidade inadiável da Psicologia no acolhimento e na desconstrução da misoginia diante dos índices alarmantes de violência e feminicídio.

Ivani Oliveira ressaltou que “atuar frente a esse cenário de violência não é opcional, mas sim um dever ético, político e profissional da Psicologia brasileira, exigindo posicionamento institucional firme e coragem” e que o sofrimento psíquico deve ser compreendido em seu contexto social, sem análises individualizantes. “O machismo mata, o racismo mata, a LGBTfobia mata e a pobreza também mata”, pontuou, reivindicando o amplo financiamento de políticas públicas e o acesso à justiça para que as mulheres possam viver sem medo.

Sob a condução das conselheiras federais Jaqueline Gomes de Jesus e Vanessa Terena, que dividem a coordenação da Comissão de Direitos Humanos do CFP, a programação do 1º Seminário foi estruturada para refletir as subjetividades de mulheres indígenas, amazônidas, com deficiência e da população LGBTQIA+.

Jaqueline Gomes de Jesus destacou que a categoria deve romper com perspectivas universalizantes para incorporar as diversidades. “A Psicologia deve superar a visão de ‘monocultura’ para se tornar uma ‘floresta de saberes’, múltipla e diversa, que acolha as diferentes formas de ser mulher”, frisou.

A conselheira do CFP explicou que a decisão de realizar o evento em Cuiabá respondeu diretamente aos dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT) e do Monitor de Feminicídios (Lesfem/UEL), que apontam Mato Grosso e sua capital na liderança proporcional de assassinatos decorrentes de gênero no País. “Estamos aqui para promover formação e debates para que a Psicologia faça diferença, porque nós somos pela vida das mulheres”, completou Jaqueline Gomes de Jesus.

Vanessa Terena pontuou que a CDH tem pautado a atuação profissional a partir de especificidades ligadas aos territórios, enfatizando que as questões indígenas são diretamente atravessadas por marcadores de gênero e sexualidade. Ela ressaltou a urgência de a Psicologia se implicar no entendimento dos mais de 300 povos indígenas que compõem o território brasileiro, compreendendo a fundo as realidades de cada território de atuação, a exemplo dos 43 povos indígenas que vivem no estado de Mato Grosso.

A conselheira do CFP expressou preocupação com as lacunas na formação acadêmica tradicional, questionando o distanciamento da categoria em relação às realidades originárias. “Estudamos cinco anos para conhecer e entender as humanidades, mas saímos da faculdade sem conhecer os povos originários do Brasil. É preciso questionar a serviço de quem interessa essa invisibilidade permanecer na graduação e na pós-graduação”, destacou Vanessa Terena.

Programação plural e representativa

O 1º Seminário Nacional Psicologia e Mulheridades percorreu temas urgentes por meio de conferências e oficinas. A mesa de abertura reuniu a presidenta do CFP, Ivani Oliveira, e a conselheira federal e coordenadora da CDH, Jaqueline Gomes de Jesus, ao lado de Gabriel de Figueiredo, conselheiro presidente do CRP-MT, e Jordana Nahsan, coordenadora da Comissão de Direitos Humanos e Políticas Públicas do Conselho Regional mato-grossense.

As reflexões foram iniciadas pela conferência de Raquel Gouveia, pós-doutora em Serviço Social, Políticas Sociais e Direito, que coordena projetos de pesquisa e extensão voltados à luta antimanicomial e diálogos antirracistas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na sequência, a palestra magna de Cleciane Cruz, especialista em Saúde Mental, Inclusão e Direitos Humanos, trouxe o debate sobre deficiência, raça e corporalidade.

A programação seguiu com atividades voltadas à prática cotidiana. O conselheiro do CFP Rômulo Mafra, psicólogo clínico e educacional, realizou oficina sobre a escuta de homens agressores em situações de medidas protetivas. Luara Matos, psicóloga escolar e integrante da CDH/CFP, apresentou oficina focada na educação preventiva com jovens. A atuação profissional no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) foi o tema da oficina oferecida pela conselheira do CFP Marcela Acioli, que possui ampla experiência na gestão de Saúde Indígena e Assistência Social.

A exposição sobre as subjetividades das mulheres indígenas ocupou lugar central na oficina apresentada por Itaynara Tuxá, psicóloga com trajetória na Saúde Indígena. A diversidade sexual e de gênero orientou a oficina conduzida por um grupo de especialistas: Jaqueline Gomes de Jesus, doutora em Psicologia Social e pós-doutora em Ciências Sociais; Liliane Martins, doutoranda em Psicologia Social pela UFMG e secretária da Secretaria de Orientação e Ética (SOE) do CFP; e Dalcira Ferrão, especialista em administração pública e gestão social, integrante da CDH/CFP.

O panorama das vivências femininas foi completado pela palestra de encerramento da psicóloga Laura Quesslloya, representante do CFP na Frente Nacional pela Saúde de Migrantes (Fenami), que discutiu os desafios da categoria frente ao fenômeno das migrações e mulheres.

Toda a programação está disponível no canal do CFP no YouTube. Também já podem ser acessadas as galerias de fotos do primeiro e do segundo dia de atividades.

*Crédito da Galeria de Imagens: CRP-MT.