O Centro de Referências Técnicas em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP) está realizando um estudo piloto para a atualização de seu processo metodológico para a produção de referências técnicas. Uma nova metodologia de pesquisa está sendo avaliada no contexto da elaboração das Referências Técnicas para Cuidados Paliativos no Sistema Único de Saúde (SUS). A atualização metodológica busca criar mecanismos que permitam a flexibilidade de escolhas empíricas conforme as especificidades dos territórios, incentivem a participação efetiva de profissionais que atuam no campo a ser pesquisado e potencializem o impacto da pesquisa na política pública local.
Em seus 20 anos de existência, o processo de elaboração de referências mais comumente utilizado pela rede Crepop permitia bastante discricionariedade e isolamento do trabalho de comissões de especialistas ad hoc em relação à realidade das(os) profissionais atuando nas redes. Selecionadas a partir de um chamamento público de prestação de serviços técnicos por produtos ou estratégias análogas, as comissões de especialistas conduziam pesquisas, que subsidiavam a redação de uma minuta, disponibilizada publicamente em uma consulta pública. Depois de revisar o documento conforme recomendações feitas na consulta pública, o documento era publicado. Esse processo permitiu a produção de várias Referências Técnicas que se tornaram estratégicas para qualificar a atuação de psicólogas em políticas públicas. Alguns textos, entretanto, ficaram muito descritivos e pouco analíticos, sem uma discussão bem desenvolvida para orientar a atuação das(os) psicólogas(os) nas políticas públicas brasileiras, ou com uma discussão descolada do trabalho de campo, refletindo mais a opinião das(os) especialistas do que uma análise derivada dos dados coletados.
A atualização metodológica em curso em 2026 consiste na criação de mecanismos para aproximar o trabalho da comissão de especialistas da Rede CREPOP e para contemplar a diversidade dos territórios. A proposta é que pessoas da Rede CREPOP participem da constituição das comissões ad hoc para garantir coesão e continuidade entre a pesquisa realizada pelos Conselhos Regionais e o produto final. Além disso, profissionais da Psicologia atuando em políticas públicas são convidadas(os) a participar do processo da pesquisa desde a concepção de seu escopo e seu desenho metodológico, e não apenas no estágio de consulta pública, após a elaboração de uma minuta. Finalmente, o processo atual busca garantir abertura para que cada pesquisa tenha seu próprio percurso, considerando escolhas metodológicas adequadas a cada território.
No caso da pesquisa sobre a atuação de psicólogas(os) nos Cuidados Paliativos no SUS, por exemplo, a rede CREPOP iniciou o processo com um mapeamento inicial do campo, que identificou os serviços e equipamentos de cuidados paliativos existentes nos estados. A comissão ad hoc responsável pelo estudo foi constituída não apenas por especialistas externas(os), mas também por integrantes do corpo técnico do CREPOP, e foi incumbida do acompanhamento integral do processo, com participação nas ações de formação continuada e treinamento da Rede.
Nos dias 12 e 13 de junho de 2026, representantes da Rede CREPOP de todo o país se reuniram em Brasília para um seminário de formação, no qual pessoas da comissão ad hoc e facilitadoras(es) convidadas(os) fizeram um panorama da história e do atual contexto da atuação da Psicologia nas políticas de cuidados paliativos. Depois dessa problematização inicial, representantes dos Regionais debateram sobre a conjuntura da política em seus territórios e começaram a desenvolver um Plano Singular de Pesquisa, elencando as especificidades de seu território com implicações para a amostra analítica, os métodos e os instrumentos adequados à pesquisa.
Miriam Cristiane Alves, conselheira do CFP, explica que o CREPOP é uma política institucional do Sistema Conselhos de Psicologia que já está consolidada e a reformulação do processo de construção de referências visa ampliar o que já foi construído, para que os estudos contemplem as diversidades regionais. “Partimos da ideia de que não existe uma única metodologia capaz de responder igualmente às realidades de todo o país. Por isso, o Plano Singular de Pesquisa deve ser construído como uma curadoria: escolhendo instrumentos, formas de escuta, estratégias de campo e cuidados éticos adequados a cada contexto”, ressalta Míriam.
A Rede Crepop vai participar também das próximas etapas da pesquisa sobre cuidados paliativos, com o refinamento do Plano Singular de Pesquisa, a execução do campo, a interpretação de seus resultados e a definição de estratégias para a consulta pública. A expectativa é que o processo de construção da pesquisa garanta uma participação efetiva da categoria e uma escuta qualificada de atores sociais envolvidos nas políticas de cuidados paliativos, levando à produção de conhecimento socialmente referenciado, com pluralidade de perspectivas e grande potencial de impacto na política pública local.
Enquanto o novo processo de construção de referências técnicas é validado com o estudo piloto sobre cuidados paliativos no SUS, quatro outras pesquisas do CREPOP estão em fase avançada e devem ser publicadas ainda em 2026: sobre suicídio e posvenção; acolhimento no Sistema Único de Assistência Social (SUAS); Rede de Atenção Psicossocial (RAPS); e a atuação profissional com pessoas com deficiência (PcD).