A Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia (CDH/CFP) manifesta sua solidariedade à deputada federal Duda Salabert e ao assessor Felipe Gomes, agredidos na madrugada de 4 de setembro de 2026, durante uma fiscalização de extração irregular de minério na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Os dois foram perseguidos enquanto documentavam a atividade clandestina, e relataram ter ouvido ameaças de morte. A deputada sofreu escoriações e uma luxação no ombro.
Esse ataque não é um caso isolado. A violência contra quem defende os direitos humanos e o meio ambiente não pode ser normalizada, e ela se anuncia antes de violar os corpos das pessoas afetadas, desde a deslegitimação e o ataque à honra desses militantes, e vai se tornando aceitável até que a agressão física deixe de causar espanto.
A psicologia tem compromisso com o enfrentamento a esse tipo de violência porque os direitos humanos constam do primeiro princípio do nosso Código de Ética. Eles orientam a nossa conduta, o modo como produzimos conhecimento e lidamos com o sofrimento, e por isso são parte da nossa metodologia.
Quando a agressão a uma parlamentar que fiscaliza crimes ambientais passa a parecer tolerável, o efeito de intimidação alcança todas as pessoas que denunciam ilegalidades. A violência contra quem denuncia ou fiscaliza ilegalidades produz um efeito de intimidação mais amplo, reduzindo as condições concretas para o exercício do controle social e da defesa de direitos. A psicologia se ocupa disso.
Defensoras e defensores de direitos humanos vivem sob ameaça, perseguição e sobrecarga, e adoecem. A produção de saúde mental para quem sustenta a democracia é uma tarefa da nossa profissão, e ainda é pouco assumida como tal. A psicologia brasileira tem repertório para acolher esse sofrimento e para nomear a violência que o produz. Este é também o lugar desse debate e da defesa de quem ativa direitos neste país.
Duda Salabert é uma referência na defesa ambiental. Como mulher trans na política, ela convive com a dimensão simbólica dessa mesma violência, expressa em ataques constantes à sua legitimidade. A violência política de gênero atinge de forma específica as mulheres, e com peso maior as mulheres trans e travestis, que enfrentam mais barreiras para ocupar e permanecer nos espaços de decisão. O episódio precisa ser lido junto desse acúmulo, não como um incidente avulso.
Diante da gravidade dos fatos, a CDH/CFP cobra das autoridades competentes:
· À Polícia Civil de Minas Gerais, uma investigação rigorosa e isenta, que apure em profundidade a autoria, as motivações e a relação direta das agressões e ameaças com a fiscalização realizada;
· À Polícia Federal, a apuração do que for de sua competência, considerando o exercício do mandato parlamentar e a possível conexão com crimes relacionados à exploração mineral ilegal;
· Aos órgãos ambientais e de fiscalização mineral competentes, a apuração célere das irregularidades que estavam sendo documentadas no local;
· Às autoridades responsáveis pela proteção de defensoras e defensores de direitos humanos, a avaliação e a adoção imediata das medidas de proteção necessárias à companheira Duda Salabert e a Felipe Gomes.
Seguimos com Duda e com Felipe!
CDH/CFP