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02/10/2026 - 16:11

Rede PePsic promove debate sobre uso de inteligência artificial no contexto científico

A Rede de Periódicos de Psicologia (PePsic) reuniu pesquisadores para debater sobre formas de usar ferramentas de IA para aumentar a produtividade acadêmica sem ferir princípios éticos

Rede PePsic promove debate sobre uso de inteligência artificial no contexto científico

Entre 3 e 4 de setembro de 2026, a rede latinoamericana de Periódicos de Psicologia (PePsic) reuniu pesquisadoras/es para o seminário “Uso e Impacto da Inteligência Artificial no Contexto Editorial Científico”, que aconteceu na sede do Conselho Federal de Psicologia (CFP) em Brasília. A rede PePsic recebeu mais de mil e duzentas inscrições para a transmissão ao vivo do seminário, feitas por estudantes de cursos de graduação e pós-graduação, docentes, pesquisadoras/es, editoras/ es de periódicos científicos e bibliotecárias/os. A gravação está disponível no canal do CFP no YouTube.

Para a conselheira do CFP Miriam Alves, o seminário foi uma oportunidade para fortalecer a rede PePsic, que promove a circulação de conhecimento sobre Psicologia em acesso aberto, no atual contexto de prevalência de ferramentas de inteligência artificial (IA). “Hoje, a inteligência artificial já está presente em diferentes etapas da produção e da comunicação científica, da escrita e tradução à editoração, produção de metadados e divulgação. Por isso, mais do que discutir se devemos ou não utilizar essas tecnologias, precisamos refletir sobre como fazê-lo de maneira responsável e transparente, preservando a qualidade, a ética e a integridade científica”, explica.

No seminário, os pesquisadores Cláudio Donizetti Brites da Silva, Átila Alexandre Trapé, Rafael Cardoso Sampaio e Washington Segundo alertaram sobre os riscos que a IA traz para a confiabilidade de resultados de pesquisa e a segurança dos dados. Por outro lado, recomendaram ferramentas de IA e boas práticas que podem ajudar a aumentar a produtividade acadêmica sem ferir princípios éticos.

Confiabilidade

Os pesquisadores enfatizam que os processos realizados por tecnologias de IA não são confiáveis e precisam ser verificados por analistas humanos. Rafael Cardoso Sampaio, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco, resume o problema da seguinte forma: “A IA não tem transparência, validação, reprodutividade. Ferramentas alucinam e erram, falam para agradar, geram ilusão de competência”.

Átila Alexandre Trapé, editor-chefe da Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde (RBAFS), pondera que a IA poderia ajudar a reprodutibilidade de estudos, mas é comumente usada sem rastreabilidade. Por isso, Trapé ressalta que processos de revisão, como a elaboração de pareceres, precisam continuar humanos.

Os pesquisadores apontam ainda que ferramentas de IA promovem a modalização de discursos e a homogeneização do conhecimento. Cláudio Donizetti Brites da Silva, doutorando em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), cita um exemplo de experimentação com IA que usou na sua tese de doutorado. Silva conta que ao pedir para um agente de IA melhorar o seu texto, o agente deletou referências a autores não hegemônicos em seu campo de pesquisa e tornou o texto mais pasteurizado e menos autoral.

Segurança de dados

Uma preocupação consensual entre os pesquisadores é que o atual mercado de tecnologias de IA, dominado por empresas com soluções proprietárias, não apresenta salvaguardas em relação à segurança dos dados. Acordos éticos que eram típicos no meio científico, tais como a preservação de acordos de confidencialidade e a verificação de procedimentos, são agora atravessados por “autoridades” empresariais, que não se submetem às leis brasileiras e podem interromper seu serviço a qualquer momento.

Em sua palestra, Cláudio Donizetti Brites da Silva cita uma série de exemplos recentes de centros de pesquisa brasileiros que perderam dados sensíveis salvos em nuvens controladas por empresas proprietárias. Foi o caso de centros de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) em 2024, quando a Google mudou abruptamente a política de acesso a dados, e de centros da Fiocruz em 2026, em função de uma mudança de contrato por parte da Microsoft. Cláudio cita também interrupções de serviço por ordem do governo dos Estados Unidos, que já determinou que a empresa Anthropic, dona do ChatGPT, parasse de fornecer recursos avançados de IA para estrangeiros, o que ocasionou na interrupção de serviços inclusive no território dos Estados Unidos.

Não é seguro subir dados sensíveis ou confidenciais em plataformas como as do ChatGPT, Google ou Microsoft. Em estudos que usam dados sensíveis, Rafael Cardoso Sampaio recomenda a utilização de modelos abertos, tais como os da plataforma Ollama, que permite rodar modelos de linguagem diretamente no computador dos usuários, sem a necessidade de compartilhamento de dados.

Os palestrantes e as mediadoras do seminário da Rede PePsic concordam que é preciso produzir estruturas de tecnologia sustentáveis no Brasil, em particular nas áreas de armazenamento de dados e cybersegurança, para reduzir a dependência em relação a países estrangeiros e construir condições de acesso à tecnologia para mais pesquisadores.

Recomendações de ferramentas e boas práticas

Apesar dos avisos de cautela, os pesquisadores fazem várias recomendações de ferramentas de IA atualmente existentes e boas práticas que podem ajudar a aumentar a produtividade acadêmica.

Washington Segundo, coordenador-geral de Informação Científica e Técnica do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), mostra vários sistemas desenvolvidos pelo Ibict para o compartilhamento de resultados, dados, códigos e publicações de forma aberta. Um destaque é o Ecossistema de Informação da Pesquisa Científica Brasileira (BrCris), nome que faz referência a uma versão brasileira dos sistemas tipo Current Research Information System (CRIS). O sistema reúne, estrutura e disponibiliza publicações científicas, além de informações sobre patentes, programas de pós-graduação, grupos de pesquisa e programas de computador.

Átila Alexandre Trapé recomenda a utilização do software Turnitin para verificação de similaridade textual e plágio, do ChatGPT para tradução e do NotebookLM para controlar fontes, normalizar e checar a coerência entre sessões de um texto. Trapé considera o NotebookLM mais seguro e fechado, em relação ao controle de fontes, do que alternativas como o Claude e o Perplexity.

Mais do que fontes de informação e softwares, entretanto, a recomendação principal é que pesquisadores e editores sejam fiéis a uma política de transparência e integridade científica. Quando se publica um estudo, é preciso publicar também quais ferramentas de IA foram usadas em sua condução, se foi o caso, e com que propósitos. Além disso, os autores precisam revisar os procedimentos realizados com IA e assumir a responsabilidade pelos resultados.

Confira a íntegra do seminário no Canal do CFP no Youtube.