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02/10/2026 - 10:18

Psicologia e Direitos Humanos: Nova edição do Boletim da CDH propõe uma atuação anticolonial, interseccional e pautada no Bem Viver 

Publicação do Conselho Federal de Psicologia reúne artigos sobre matriarcado afro-brasileiro, letramento racial indígena, desafios da IA e migração transnacional.

Psicologia e Direitos Humanos: Nova edição do Boletim da CDH propõe uma atuação anticolonial, interseccional e pautada no Bem Viver 

O Conselho Federal de Psicologia (CFP), por meio da Comissão de Direitos Humanos (CDH), lançou a primeira edição do volume II do boletim Universais e Interdependentes. A publicação, apresentada oficialmente durante o evento que celebrou os 30 anos do Conselho Regional de Psicologia de Mato Grosso do Sul, agora está disponível nas plataformas digitais do CFP.

Conduzida por um plenário majoritariamente feminino, negro e indígena, a publicação consolida o compromisso da psicologia brasileira em dialogar diretamente com os territórios, combater as desigualdades estruturais e enfrentar o racismo, o sexismo e todas as formas de discriminação e exclusão. 

A apresentação da edição, feita pela presidenta do CFP, Ivani Francisco de Oliveira, e pelas conselheiras coordenadoras da CDH, Jaqueline Gomes de Jesus e Vanessa Terena, destaca que o sofrimento psíquico não pode ser desvinculado das condições concretas de vida e das opressões históricas. 

 O boletim convoca a categoria a assumir um papel ativo na promoção da justiça social e na defesa das políticas públicas, do SUS e do SUAS. No artigo “Psicologia e mulheridades: teorias e práticas no enfrentamento à violência de gênero”, Jaqueline Gomes de Jesus aborda o feminicídio como a expressão máxima da violência machista e defende a urgência de uma prática psicológica interseccional. 

O texto reflete sobre marcos recentes promovidos pelo CFP, como a live “Mulheres Vivas” e o 1º Seminário Nacional Psicologia e Mulheridades, realizado em Cuiabá (MT), trazendo o conceito de “mulheridades” para quebrar a ilusão de uma experiência feminina única e abarcar as especificidades de mulheres negras, indígenas, periféricas, LBTs e com deficiência. 

Em “Letramento Racial Indígena”, as psicólogas Vanessa Terena, Priscila Góre Kaingang e Vitória Christine Lisboa de Andrade debatem os estereótipos vivenciados por estudantes e profissionais indígenas. As autoras questionam a negação da identidade originária baseada em aculturações forçadas,como o uso de celulares ou a presença nas cidades, e enfatizam que apenas os próprios povos indígenas detêm a autonomia para definir sua identidade. O texto reforça o papel da Articulação Brasileira de Indígenas Psicólogos(as) (ABIPSI) na promoção de uma psicologia conectada às medicinas tradicionais e aos saberes ancestrais. 

A relevância do conhecimento tradicional também aparece o artigo “Matriarcado afro-brasileiro: o futuro da saúde mental também é ancestral”, assinado por Luara Christina Silva Matos. A autora denuncia os processos de epistemicídio e a hegemonia do modelo biomédico colonial, destacando a liderança histórica das mulheres negras e das parteiras e Yalorixás como verdadeiras gestoras de tecnologias de cuidado e saúde comunitária. 

Inteligência artificial 

Olhando para os dilemas da atualidade, Claudio Brites discute em “Psicologia, Inteligência artificial e Direitos Humanos” como a expansão dos agentes digitais e das IAs generativas exige um posicionamento crítico da profissão. O autor alerta para a concentração de poder nas mãos das big techs, o risco de apagamento da diversidade e os impactos sobre o sigilo e a autonomia profissional.

Complementando a discussão, Henrique Galhano Balieiro e Laura Elvira Lopez Queslloya assinam o artigo “A Migração Indígena Transnacional e a Produção Institucional das Vulnerabilidades no Brasil”. O trabalho lança luz sobre o deslocamento forçado de populações indígenas, em especial o povo Warao vindo da Venezuela, impulsionado pelo neoextrativismo. Os autores denunciam a inadequação dos serviços públicos brasileiros, criticam lógicas assimilacionistas e propõem o Buen Vivir (Sumak Kawsay / Suma Qamaña) como uma alternativa anticolonial focada na harmonia entre ser humano, comunidade e natureza. 

A edição encerra com depoimentos marcantes de organizações e lideranças, como a iniciativa Código [não binário], a professora Marlise Mattos (UFMG/NEPEM) e a jovem liderança indígena Raquel Jenipapo. Em sua fala, Raquel resume a essência do boletim ao afirmar que utilizar tecnologia e frequentar universidades não anula a ancestralidade: “O protagonismo indígena também tem rosto de mulher”.

Acesse o boletim em Boletim CDH – 1ª Edição | Agosto 2026 | Volume II