O Conselho Federal de Psicologia (CFP) levou ao Conbipe 2026 uma forte mobilização em prol da aprovação do Projeto de Lei 7.683/2017. Se o corpo das/dos atletas conta com acompanhamento médico e fisioterápico, a mente também precisa de cuidado. É isso que a proposta garante ao obrigar clubes, entidades desportivas, comitês olímpicos e paralímpicos e organizadores de seleções a oferecer assistência psicológica contínua às/aos atletas durante todo o período em que estiverem à disposição dessas instituições.
Com a campanha “Sem cuidado não há vitória”, o espaço do CFP no congresso mobilizou pesquisadores, profissionais e estudantes da Psicologia e da Educação Física sobre a importância da aprovação, na íntegra, do projeto de lei, considerando o avanço para o cuidado à saúde mental dos esportistas e atletas, o impacto no mercado de trabalho para psicólogas que já atuam ou que desejam ingressar no campo da Psicologia do Esporte e do Exercício e, por fim, a importância da formação nessa área, ainda escassa nas grades curriculares no âmbito da graduação.
O projeto, que nasceu no Senado, foi aprovado pela Comissão do Esporte da Câmara em 2021 e está pronto para ser votado na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC). Porém, o parecer do relator, deputado Delegado Paulo Bilynskyj (PL-SP), propõe mudar o texto: a assistência psicológica deixaria de ser uma obrigação contínua dos clubes e passaria a ser oferecida somente se a(o) atleta solicitasse ou houvesse uma demanda específica. Para a conselheira federal de Psicologia Annie Louise Saboya, apresentar e mobilizar a categoria para a aprovação do projeto foi o principal objetivo do Conselho Federal de Psicologia no Conbipe 2026.
“Estamos na luta para que seja mantido o texto original, que traz a obrigatoriedade de os clubes contratarem psicólogas para o acompanhamento psicológico contínuo de atletas. Estamos aqui para acompanhar, fazer incidência política, trocar e crescer junto com a Psicologia do Esporte”, afirmou.
A conselheira destacou ainda que a agenda da Psicologia do Esporte é uma das pautas prioritárias do XX Plenário, que vem construindo uma importante incidência que dá continuidade a uma agenda de reaproximação com a especialidade. Em maio deste ano, durante o VI Encontro Norte e Nordeste de Psicologia do Esporte (ENNEPE), em Salvador (BA), o Conselho anunciou a atualização da Referência Técnica para a Atuação de Psicólogas(os) em Políticas Públicas de Esporte, elaborada pelo Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP).
Da lei à formação e o esporte como direito
Garantir a presença de psicólogas nos clubes também exige olhar para a formação. “Um dos maiores desafios da Psicologia do Esporte, desde que ela se tornou uma especialidade da Psicologia brasileira, é a questão da formação”, afirmou a professora da Universidade de São Paulo (USP) Katia Rubio.
Segundo ela, 26 anos depois, a disciplina ainda falta nas grades curriculares de muitas graduações em Psicologia, o que seria uma lacuna, já que oferecer a matéria poderia ser um disparo para a atuação profissional na área. “Participando do Conbipe e dialogando com estudantes de graduação e pós-graduação, e com o reforço do projeto de lei que institui o psicólogo e a psicóloga do esporte dentro dos clubes, penso na importância de continuarmos a batalhar para que a Psicologia do Esporte venha para os currículos de graduação”, afirmou a professora, que integrou a delegação do CFP no evento.
A pesquisa também tem lacunas. Uma pesquisa de revisão de escopo da produção brasileira dos últimos dez anos, apresentada durante a programação oficial do congresso, mostra que o futebol concentra 17% dos estudos, enquanto o esporte adaptado responde por 4,2% e os e-sports (jogos eletrônicos), por 1%.
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O congresso também tratou o esporte para além do alto rendimento, também como princípio para a educação, a participação e o lazer. De acordo com dados apresentados em uma das mesas de debate, o exercício reduz sintomas de depressão e ansiedade, mas só 1 em cada 4 brasileiros é ativo no tempo livre,e 63% abandonam a academia até o terceiro mês.
Estudo da USP de 2026, que acompanhou 978 adultos na cidade de São Paulo por dez anos, indica que pessoas de baixa renda têm 38% menos chance de se exercitar. “A Psicologia está junto para ampliar o acesso ao esporte como um direito”, ponderou Annie Louise.
Os debates do Conbipe mostraram também por que a pauta é urgente no âmbito do esporte profissional. Pesquisa com atletas que disputaram os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, apresentada no congresso, aponta que os sintomas de depressão em atletas de elite variam de 4% a 68%. Solidão, pressão por resultados e privação de lazer estão entre os aspectos mais relatados.
No esporte paralímpico, o acompanhamento psicológico lida ainda com o retorno de lesões, as pausas na carreira e as mudanças de classificação. Ansiedade em competição, humor deprimido e comportamentos de autoboicote após uma reclassificação frustrada estão entre as situações descritas.
Saúde Mental em jogo
Atletas de elite que já falaram publicamente sobre saúde mental mostram que talento e preparo físico não bastam. Assim, o cuidado psicológico não pode chegar só depois da crise e deve ser ofertado em toda a trajetória de atuação, incluíndo também atletas que não atuam exclusivamente na esfera da alta performance esportiva.
Em maio de 2021, a tenista nipo-haitiana Naomi Osaka abandonou o torneio de Roland Garros e revelou que convivia com depressão e ansiedade. Dois meses depois, nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a ginasta norte-americana Simone Biles deixou a final por equipes e a disputa do individual geral para cuidar da saúde mental. O jogador de futebol brasileiro Adriano Imperador contou em 2021, em carta publicada no site The Players’ Tribune, que entrou em depressão após a morte do pai, em 2004, quando vivia o auge da carreira em um clube de futebol italiano.
Em contraposição aos casos de desassistência psicológica, o Brasil também apresenta bons exemplos de como a atuação da psicologia do esporte é benéfica para os atletas, reforçando que o acompanhamento psicológico contínuo faz diferença dentro e fora das competições.
O exemplo mais conhecido é o de Rebeca Andrade, maior medalhista olímpica do país. Há mais de dez anos ela é acompanhada pela psicóloga Aline Wolff, que integra a equipe do Comitê Olímpico do Brasil (COB). Já o medalhista de prata na canoagem nas Olimpíadas de Paris, Isaquias Queiroz, contou que recorreu ao apoio da equipe de saúde mental do COB durante a competição. O próprio comitê ampliou essa estrutura e levou 10 profissionais de psicologia do esporte aos Jogos de Paris, contra 4 em Tóquio, e incluiu pela primeira vez um psiquiatra na delegação.
O movimento chegou também ao futebol em 2024, quando a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) incorporou a psicóloga Marisa Lúcia Santiago à comissão técnica da seleção feminina. Entre os clubes profissionais da série A, por exemplo, o cenário, ainda é desigual. Levantamento do portal de notícias ge (do Grupo Globo), publicado em junho de 2024, mostrou que cerca de 4 em cada 10 clubes da Série A não tinham psicólogo na comissão técnica do time profissional. Alguns tinham departamento de psicologia, mas estavam sem profissional no momento; outros só encaminhavam os atletas a parceiros quando necessário.
É essa diferença entre quem tem acesso e quem não tem, que o PL 7.683/2017 quer eliminar. Assim, o cuidado que levou Rebeca ao pódio passa a ser um direito não somente de todos os atletas profissionais, mas também para os que estão em processo de formação, atuam nas categorias de base e que também demandam cuidado contínuo no âmbito da saúde mental.
Faça a sua mobilização
Com o PL 7.683/2017 pronto para votação na CCJC, a mobilização realizada no Conbipe continua. Aprovado na íntegra, o texto faz com que o cuidado com a saúde mental de atletas deixe de depender da decisão de cada clube e passe a ser um direito garantido em lei. A aprovação também amplia o campo de atuação de psicólogas e psicólogos do esporte.
Faça parte dessa mobilização e envie um e-mail ao relator do projeto na CCJC, deputado Delegado Paulo Bilynskyj (PL-SP), pedindo a aprovação do texto original.
Para participar clique aqui.