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17/03/2017 - 12:12

Família, gênero e emancipação psicossocial

Artigo revela dados de pesquisa realizada a partir da prática de estágio curricular em “Clínica Transdisciplinar: gênero, saúde e família” da Unesp

Problematizar as intersecções entre relações familiares, gênero e emancipação psicossocial a partir da prática de estágio na Clínica Transdisciplinar: gênero, saúde e família para formação da (o) psicóloga (o). Esse é o tema do artigo “Família, Gênero e Emancipação Psicossocial”, publicado na edição 36.4 da Revista Psicologia: Ciência e Profissão.

O estágio foi realizado no Departamento de Psicologia Clínica da Universidade Estadual Paulista (Unesp) “Júlio de Mesquita Filho”, campus de Assis.

O texto é assinado pelos pesquisadores André Masao Peres TokudaWiliam Siqueira Peres e Caio Andrêo. Tokuda é mestre em Psicologia pela Unesp, coordena o curso de Psicologia das Faculdades Integradas de Três Lagoas (MS) e é membro do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre as Sexualidades (Geps). Peres, doutor em Saúde Coletiva pela Unesp, tem pós-doutoramento em Psicologia e Estudos de Gênero pela Universidade de Buenos Aires, Argentina, e leciona na Unesp; Andrêo, mestre em Psicologia pela Unesp, é professor de Psicologia das Faculdades Integradas de Ourinhos (FIO) e da Faculdade da Alta Paulista (FAP). É também membro do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre as Sexualidades (Geps).

O CFP divulga semanalmente, no portal institucional e nas redes sociais, um artigo da Revista Psicologia: Ciência e Profissão, que tem sua versão eletrônica publicada na plataforma SciELO. É uma forma de a autarquia fortalecer a busca pelo conhecimento científico, divulgando-o para a categoria e para a sociedade. 

Emancipação psicossocial

O contemporâneo aponta crises de paradigmas que solicitam mudanças conceituais nas composições familiares, em suas relações e estratégias de poder. Essas mundanças atingem principalmente as mulheres, que são vítimas, ainda, de diferentes modos de violências, como as de gênero. Estas análises se mostram presentes na experiência de estágio curricular em Psicologia Clínica, realizada em uma vila periférica por estudantes da área.

Os autores destacam que este cenário aponta para regulações e controles sobre os corpos, os sexos, a sexualidade, o gênero e as práticas relacionais dentro da própria família, na qual ainda se mantém estilos de vida restritos a padrões heteronormativos que excluem outros arranjos possíveis de composições familiares e relacionais. Desta forma, o objetivo do estudo foi problematizar as diversas experiências que despotencializam as mulheres, e também propor uma Psicologia Política de promoção dos direitos sexuais e humanos que contemplem uma vida em que as pessoas possam ter seus desejos e singularidades respeitadas, para que alcancem emancipação psicossocial e tenham acesso à cidadania.

Em entrevista, os autores do artigo contaram mais detalhes da pesquisa.

 

O que motivou a pesquisa? 

O interesse pela pesquisa é fruto da prática desenvolvida no estágio curricular em Psicologia Clínica durante a graduação na Universidade Estadual Paulista (Unesp) “Júlio de Mesquita Filho”, campus de Assis. Por meio de atendimentos discutidos em supervisão, percebemos que havia muitas mulheres atendidas que eram atravessadas por um modelo de família com relações permeadas por diversos tipos de violências, como as físicas, as psicológicas e as de gênero. Essas violências promoviam a regulação dos corpos de muitas dessas mulheres, que tinham suas vidas reduzidas a essa configuração. As obrigações domésticas são um exemplo, impostas e naturalizadas como femininas. Com isso, por meio das discussões, houve também o aprofundamento na leitura de materiais sobre o tema, indicados por um supervisor. Isso acabou promovendo impactos nos atendimentos, pois algumas mulheres conseguiram se empoderar e “negociar” esse lugar, promovendo outros posicionamentos frente ao seu papel dentro da família. A relevância do tema para a Psicologia é que muitas mulheres ainda se encontram nesse lugar e, divulgando o resultado do estudo, acreditamos poder contribuir para o avanço das discussões sobre as questões de família e gênero na prática da Psicologia.

 

Quais os resultados do levantamento? 

Em alguns casos, por meio dos atendimentos realizados e embasados em teóricas (os) que problematizam as relações de gêneros e sexualidades, pudemos notar uma mudança de posturas frente às funções naturalizadas ocupadas por muitas mulheres dentro da família, que também se configuravam como formas de violências. Isso fez com que muitas delas, que antes assumiam uma postura passiva e submissa diante da vida e das relações familiares, especialmente em relação ao homem, pudessem produzir rupturas e novas formas de agir diante da situação, fazendo com que adquirissem autonomia e se empoderassem para reivindicar seus próprios desejos e direitos.

 

Como uma psicologia política de promoção dos direitos sexuais e humanos poderia permitir que as pessoas tenham seus desejos e singularidades respeitados? 

Uma proposta para a promoção dos direitos sexuais e humanos para alcançar a emancipação psicossocial, em respeito às singularidades das pessoas, seria uma atuação política da Psicologia no sentido de oferecer discussões que ampliem o lugar comum e favoreçam a compreensão sobre os atravessamentos que muitas vezes engessam os corpos de muitas pessoas. A Psicologia também deve repensar o seu lugar, no sentido de não contribuir para a patologização da vida, para a despotencialização e normatização dos corpos e sim na promoção de outras possibilidades de existência frente a um contexto que, muitas vezes, não oferece políticas públicas de acesso à população, como ocorre em muitos bairros periféricos, que são esquecidos por muitos governantes. Isso também contribui para esse engessamento e estigmatização.

Leia a íntegra do artigo.

 

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