Rede PePsic promove debate sobre uso de inteligência artificial no contexto científico

Entre 3 e 4 de setembro de 2026, a rede latinoamericana de Periódicos de Psicologia (PePsic) reuniu pesquisadoras/es para o seminário “Uso e Impacto da Inteligência Artificial no Contexto Editorial Científico”, que aconteceu na sede do Conselho Federal de Psicologia (CFP) em Brasília. A rede PePsic recebeu mais de mil e duzentas inscrições para a transmissão ao vivo do seminário, feitas por estudantes de cursos de graduação e pós-graduação, docentes, pesquisadoras/es, editoras/ es de periódicos científicos e bibliotecárias/os. A gravação está disponível no canal do CFP no YouTube.

Para a conselheira do CFP Miriam Alves, o seminário foi uma oportunidade para fortalecer a rede PePsic, que promove a circulação de conhecimento sobre Psicologia em acesso aberto, no atual contexto de prevalência de ferramentas de inteligência artificial (IA). “Hoje, a inteligência artificial já está presente em diferentes etapas da produção e da comunicação científica, da escrita e tradução à editoração, produção de metadados e divulgação. Por isso, mais do que discutir se devemos ou não utilizar essas tecnologias, precisamos refletir sobre como fazê-lo de maneira responsável e transparente, preservando a qualidade, a ética e a integridade científica”, explica.

No seminário, os pesquisadores Cláudio Donizetti Brites da Silva, Átila Alexandre Trapé, Rafael Cardoso Sampaio e Washington Segundo alertaram sobre os riscos que a IA traz para a confiabilidade de resultados de pesquisa e a segurança dos dados. Por outro lado, recomendaram ferramentas de IA e boas práticas que podem ajudar a aumentar a produtividade acadêmica sem ferir princípios éticos.

Confiabilidade

Os pesquisadores enfatizam que os processos realizados por tecnologias de IA não são confiáveis e precisam ser verificados por analistas humanos. Rafael Cardoso Sampaio, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco, resume o problema da seguinte forma: “A IA não tem transparência, validação, reprodutividade. Ferramentas alucinam e erram, falam para agradar, geram ilusão de competência”.

Átila Alexandre Trapé, editor-chefe da Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde (RBAFS), pondera que a IA poderia ajudar a reprodutibilidade de estudos, mas é comumente usada sem rastreabilidade. Por isso, Trapé ressalta que processos de revisão, como a elaboração de pareceres, precisam continuar humanos.

Os pesquisadores apontam ainda que ferramentas de IA promovem a modalização de discursos e a homogeneização do conhecimento. Cláudio Donizetti Brites da Silva, doutorando em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), cita um exemplo de experimentação com IA que usou na sua tese de doutorado. Silva conta que ao pedir para um agente de IA melhorar o seu texto, o agente deletou referências a autores não hegemônicos em seu campo de pesquisa e tornou o texto mais pasteurizado e menos autoral.

Segurança de dados

Uma preocupação consensual entre os pesquisadores é que o atual mercado de tecnologias de IA, dominado por empresas com soluções proprietárias, não apresenta salvaguardas em relação à segurança dos dados. Acordos éticos que eram típicos no meio científico, tais como a preservação de acordos de confidencialidade e a verificação de procedimentos, são agora atravessados por “autoridades” empresariais, que não se submetem às leis brasileiras e podem interromper seu serviço a qualquer momento.

Em sua palestra, Cláudio Donizetti Brites da Silva cita uma série de exemplos recentes de centros de pesquisa brasileiros que perderam dados sensíveis salvos em nuvens controladas por empresas proprietárias. Foi o caso de centros de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) em 2024, quando a Google mudou abruptamente a política de acesso a dados, e de centros da Fiocruz em 2026, em função de uma mudança de contrato por parte da Microsoft. Cláudio cita também interrupções de serviço por ordem do governo dos Estados Unidos, que já determinou que a empresa Anthropic, dona do ChatGPT, parasse de fornecer recursos avançados de IA para estrangeiros, o que ocasionou na interrupção de serviços inclusive no território dos Estados Unidos.

Não é seguro subir dados sensíveis ou confidenciais em plataformas como as do ChatGPT, Google ou Microsoft. Em estudos que usam dados sensíveis, Rafael Cardoso Sampaio recomenda a utilização de modelos abertos, tais como os da plataforma Ollama, que permite rodar modelos de linguagem diretamente no computador dos usuários, sem a necessidade de compartilhamento de dados.

Os palestrantes e as mediadoras do seminário da Rede PePsic concordam que é preciso produzir estruturas de tecnologia sustentáveis no Brasil, em particular nas áreas de armazenamento de dados e cybersegurança, para reduzir a dependência em relação a países estrangeiros e construir condições de acesso à tecnologia para mais pesquisadores.

Recomendações de ferramentas e boas práticas

Apesar dos avisos de cautela, os pesquisadores fazem várias recomendações de ferramentas de IA atualmente existentes e boas práticas que podem ajudar a aumentar a produtividade acadêmica.

Washington Segundo, coordenador-geral de Informação Científica e Técnica do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), mostra vários sistemas desenvolvidos pelo Ibict para o compartilhamento de resultados, dados, códigos e publicações de forma aberta. Um destaque é o Ecossistema de Informação da Pesquisa Científica Brasileira (BrCris), nome que faz referência a uma versão brasileira dos sistemas tipo Current Research Information System (CRIS). O sistema reúne, estrutura e disponibiliza publicações científicas, além de informações sobre patentes, programas de pós-graduação, grupos de pesquisa e programas de computador.

Átila Alexandre Trapé recomenda a utilização do software Turnitin para verificação de similaridade textual e plágio, do ChatGPT para tradução e do NotebookLM para controlar fontes, normalizar e checar a coerência entre sessões de um texto. Trapé considera o NotebookLM mais seguro e fechado, em relação ao controle de fontes, do que alternativas como o Claude e o Perplexity.

Mais do que fontes de informação e softwares, entretanto, a recomendação principal é que pesquisadores e editores sejam fiéis a uma política de transparência e integridade científica. Quando se publica um estudo, é preciso publicar também quais ferramentas de IA foram usadas em sua condução, se foi o caso, e com que propósitos. Além disso, os autores precisam revisar os procedimentos realizados com IA e assumir a responsabilidade pelos resultados.

Confira a íntegra do seminário no Canal do CFP no Youtube.

CFP alerta para riscos de proposta de uso de inteligência artificial em saúde mental no SUS

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) publicou nesta sexta-feira (5) nota de posicionamento sobre o programa “e-Saúde Mental no SUS”, recentemente anunciado pelo governo federal. A iniciativa prevê o uso de uma plataforma digital voltada ao diagnóstico e suporte ao tratamento na atenção primária à saúde.

Na manifestação, o CFP ressalta que mudanças dessa natureza exigem cautela técnica, segurança jurídica e ampla construção coletiva, envolvendo profissionais, gestoras(es), pesquisadoras(es) e usuárias(os).

O Conselho Federal de Psicologia afirma que a atuação de psicólogas e psicólogos é essencial e insubstituível no cuidado em saúde mental, mesmo com o avanço das tecnologias baseadas em inteligência artificial (IA). 

Entre os pontos destacados pelo CFP, estão a impossibilidade de delegar a algoritmos funções como aliança terapêutica, manejo de crises e avaliação de riscos; os limites da IA diante das dimensões sociais, históricas e culturais do sofrimento psíquico; a proteção de direitos e a importância do sigilo e da ética profissional; e a necessidade de ampliar equipes multiprofissionais no Sistema Único de Saúde, em vez de adotar a tecnologia como solução paliativa.

O documento também cita experiências internacionais em que o uso de IA em saúde foi restringido ou suspenso, como na Itália, na Austrália e no Reino Unido, e reforça a necessidade de regulação rigorosa para evitar riscos à qualidade do cuidado e à privacidade.

No Brasil, o CFP aponta que softwares dessa natureza devem ter aprovação prévia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), conforme a RDC 657/2022, e que o país ainda precisa avançar em marcos regulatórios específicos para a área da saúde mental.

O Conselho Federal de Psicologia enfatiza ainda que não se opõe ao uso de tecnologias, mas rejeita projetos que desconsiderem fundamentos éticos, científicos e jurídicos, além da participação social. Para o CFP, o fortalecimento do SUS deve se basear no investimento em pessoas e na ampliação das equipes de saúde, tendo a Psicologia como dimensão central do cuidado em saúde mental.

Leia a nota pública na íntegra.

CFP realiza encontro para debater os impactos da Inteligência Artificial no exercício profissional da Psicologia

As tecnologias digitais, especialmente as de Inteligência Artificial (IA), estão redefinindo de forma rápida os processos de produção do conhecimento em todas as áreas, incluindo a Psicologia. Ferramentas de IA estão sendo cada vez mais utilizadas para analisar grandes conjuntos de dados, identificar padrões comportamentais e prever tendências em saúde mental, comportamento humano e interações sociais.

Diante do desafio imposto por essa nova realidade, essas e outras questões foram debatidas no “Seminário: Inteligência Artificial e Exercício Profissional da Psicologia”, realizado no dia 24 de outubro em Brasília/DF, na sede do Conselho Federal de Psicologia (CFP).

O encontro buscou mapear a adoção de tecnologias baseadas em inteligência artificial, analisando suas implicações éticas, sociais e profissionais. A atividade teve como proposta a troca de experiências e conhecimentos no campo, de modo a fomentar o diálogo sobre os principais desafios emergentes nessa área.

O evento contou com a participação de conselheiras e conselheiros do XIX Plenário, representantes dos Conselhos Regionais de Psicologia (CRPs) e de instituições que integram o Fórum das Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (Fenpb) – além de pesquisadoras e pesquisadores da área.

Diálogos

Durante diálogo sobre o uso do Chat GPT, o psicólogo e pesquisador Ricardo Primi, da Universidade São Francisco (USF), destacou as possibilidades de uso da inteligência artificial relacionada à psicometria, frisando a análise de conteúdo, a avaliação da personalidade a partir de entrevistas, a análise fatorial de itens usando embeddings e a correção automática de testes com respostas construídas, entre outros pontos. Para ele, a Psicometria com o uso da Inteligência Artificial pode representar o futuro da da Avaliação Psicológica na era marcada pela inteligência artificial.

O psicólogo Thiago Pavin abordou as tendências da indústria de IA para a saúde mental e o campo da regulação, realçando que muitos estudos sobre o tema estão sendo conduzidos e, nesse sentido, todas essas tecnologias deverão, em breve, tornar-se melhores. O psicólogo pontuou ainda que as profissões serão fortemente impactadas pela Inteligência Artificial, exigindo que as(os) profissionais aprendam a operar essas ferramentas, e que o mau uso da IA tende a ser combatido por governos e pelo mercado.

Thiago Pavin elencou ainda sugestões ao Sistema Conselhos de Psicologia. Entre elas, criar um Grupo de Trabalho para debater e propor resoluções sobre o tema; fomentar pesquisas e a organização de bancos de dados nacionais para treinos e validação de modelos; inspirar-se na experiência do Satepsi para testes psicológicos; estabelecer os padrões de qualidade e catalogar as soluções recomendadas para divulgar à sociedade.

Leonardo Fernandes Martins, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), ressaltou que os agentes conversacionais (sistema guiados por IA) precisam servir de apoio ao processo de cuidado e de modelo de suporte ao terapeuta, auxiliando em questões como transcrição, prontuários, triagem inicial, visão ampliada dos processos de saúde e adoecimento, dentre outros.

A pesquisadora e professora Laisa Marcorela Andreoli Sartes,do Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Outras Drogas (Crepeia), apresentou o painel “Inteligência Artificial nas intervenções digitais: impactos nos treinamentos do terapeuta e no engajamento às intervenções”. Para ela, figuram como desafios a garantia de que as respostas automáticas não substituam a intervenção humana em situações complexas, assim como o fato de que a personalização do uso dessas ferramentas não tornea interação impessoal ou mecanizada. Outro fator destacado pela pesquisadora foi o tratamento dos dados sensíveis dos pacientes em cumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados. Em sua avaliação, a IA pode ser muito útil e facilitar o acesso ao atendimento psicológico efetivo, mas a Inteligência Artificial em Psicologia precisa de validação humana.

Bruno Grossman, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (da PUC-Rio), abordou o potencial de persuasão em larga escala habilitada por Inteligência Artificial. Em sua avaliação, a IA proporcionará um futuro no qual exista a perspectiva de que cada pessoa terá um assistente de IA pessoal, com uso de voz e vídeo em tempo real, capacidade de criar relações íntimas em massa e algoritmos simulando intimidade para influenciar opiniões, votos, decisões de compras e crenças – acarretando impacto à saúde das pessoas e um desafio ao campo da Psicologia em lidar com essas questões.

No último painel do encontro, a pesquisadora Laura Soares chamou atenção para os impactos da Inteligência Artificial no Sistema de Justiça, levantando questões sobre o uso da IA nessa área e de que forma a Psicologia deverá atuar frente aos desafios. Para ela, a tecnologia pode promover celeridade, mas há preocupações éticas e com relação à garantia dos direitos humanos que precisam orientar os debates sobre o tema. Nesse sentido, a Psicologia brasileira precisa assumir protagonismo nos debates que irão afetar suas práticas junto ao Sistema de Justiça.

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