Psicologia e Mulheridades: CFP realiza diálogo sobre direitos e proteção social de mulheres negras

Romper com perspectivas hegemônicas e tensionar bases eurocêntricas para construir uma Psicologia ancorada no chão dos territórios brasileiros: esse é o alicerce para uma atuação ética e científica na superação das violências de gênero. Em continuidade ao ciclo de debates em torno do tema Psicologia e Mulheridades, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) promoveu, por meio de sua Comissão de Direitos Humanos (CDH), a transmissão ao vivo do encontro Enfrentamento à violência de gênero e ao feminicídio: perspectivas de mulheres negras idosas, quilombolas e com deficiência.

A atividade foi realizada em alusão ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, celebrados em 25 de julho. Mediado pelas conselheiras federais e coordenadoras da CDH/CFP, Jaqueline Gomes de Jesus e Vanessa Terena, o encontro colocou em pauta a urgência de qualificar a escuta e a intervenção profissional a partir da interseccionalidade, garantindo que o cuidado psicológico seja um instrumento efetivo de promoção da vida e dos direitos humanos.

Jaqueline Gomes de Jesus destacou a continuidade das ações formativas da comissão frente às múltiplas formas de violência. “A transmissão dá prosseguimento às atividades presenciais e virtuais que a Comissão de Direitos Humanos tem realizado no enfrentamento ao feminicídio e à violência de gênero em toda a sua multiplicidade, reafirmando o compromisso da Psicologia com a vida de todas as mulheres”, pontuou a coordenadora.

Vanessa Terena reforçou a urgência de uma escuta atenta e qualificada aos territórios e às singularidades brasileiras. “A Psicologia brasileira precisa se perguntar se está de fato preparada para ouvir esses coletivos, suas realidades e as diversas pluralidades que o Brasil detém. É fundamental que a categoria conheça o nosso território e o Brasil de fato”, frisou a coordenadora.

A conselheira federal e integrante do Conselho Nacional da Pessoa Idosa (CNDPI), Maria do Socorro Pimentel, abriu sua exposição destacando a necessidade de resgatar o legado ancestral de líderes negras como Tereza de Benguela. Em sua fala, pontuou as violências específicas enfrentadas pelas mulheres negras na velhice, marcada pelo triplo impacto do racismo, do sexismo e do etarismo (ou idadismo).

Maria do Socorro Pimentel denunciou a invisibilização social e a negação de direitos que acometem essa  população. “Chegar à velhice em um país atravessado por tantas desigualdades é um ato de resistência e desobediência. A nossa velhice não pode ser vista como um fardo, mas como um acervo vivo de conhecimento”, pontuou. A psicóloga reforçou que a atuação da categoria junto a essa população exige uma clínica despatologizada, letrada racialmente e atenta às singularidades territoriais.

Representando a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), a pedagoga Edna Paixão e liderança da comunidade Sítio Boa Vista, em Afrânio (PE), trouxe a dimensão do viver quilombola e a luta pela preservação da terra. Edna Paixão enfatizou que a lentidão do Estado na regularização fundiária gera insegurança e adoece as mulheres, que permanecem na linha de frente da defesa dos territórios.

A liderança chamou atenção para a necessidade de desconstruir práticas engessadas na Psicologia. “Não dá para acolher a mulher quilombola com receitas prontas. É preciso um olhar letrado racialmente e territorializado que escute a nossa realidade. Proteger essa mulher é proteger o território e a nossa ancestralidade”, destacou.

A perspectiva das mulheres com deficiência foi apresentada pela psicóloga e especialista em Saúde Mental, Inclusão e Direitos Humanos, Cleciane Cruz. A palestrante convidou a categoria a reconhecer o capacitismo como um determinante social de desigualdade que atua de forma entrelaçada ao racismo, ao patriarcado e à vulnerabilidade econômica.

Cleciane Cruz alertou sobre como a falta de acessibilidade urbana e institucional, aliada à ausência de diagnósticos precoces e ao isolamento doméstico, expõe mulheres com deficiência a ciclos silenciosos de violência. “É fundamental despatologizar a deficiência, reconhecer o capacitismo nas nossas estruturas e olhar para as mulheres com deficiência a partir do protagonismo, da autonomia e da potência”, defendeu.

Ao longo do diálogo, as coordenadoras da CDH/CFP, Jaqueline Gomes de Jesus e Vanessa Terena, reforçaram que a transmissão integra uma série de ações formativas e publicações do Sistema Conselhos voltadas a subsidiar o trabalho de psicólogas e psicólogos em todo o território brasileiro. As conselheiras destacaram que a Psicologia precisa reconhecer as pluralidades do país e se aproximar das redes comunitárias de apoio para que a atuação profissional seja, de fato, transformadora.

No canal oficial do CFP no YouTube, está disponível a playlist da série Psicologia e Mulheridades, contendo a íntegra da live Enfrentamento à violência de gênero e ao feminicídio: perspectivas de mulheres negras idosas, quilombolas e com deficiência ,da live Mulheres Vivas: a Psicologia contra o feminicídio, bem como, o 1º Seminário Nacional Psicologia e Mulheridades.

CFP integra campanha 21 Dias de Ativismo contra o Racismo

No mês que marca as mobilizações na luta pelo fim da discriminação racial, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) adere à campanha 21 Dias de Ativismo Contra o Racismo. A ação reúne um conjunto de atividades a serem realizadas por diferentes entidades públicas e organizações da sociedade civil até 21/3, Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.

A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em memória às vítimas do massacre de Shaperville, África do Sul, onde em 21/3/1960, 69 pessoas foram assassinadas e 186 ficaram feridas em protestos contra o apartheid. Na ocasião, cerca de 20 mil pessoas desarmadas protestavam contra a Lei do Passe, que determinava que pessoas negras precisariam portar documento em que estivesse expresso aonde poderiam ir. Apesar do ato pacífico, um grupo de policiais atirou contra os manifestantes. 

Desde então, a data tem sido lembrada como um chamado ao respeito e ao combate à intolerância – um compromisso que está nos princípios éticos da Psicologia brasileira.

E como parte da programação da campanha, o Conselho Federal de Psicologia publica no dia 21/3 entrevista especial com as conselheiras do CFP e integrantes da Comissão de Direitos Humanos, Alessandra Almeida e Nita Tuxá. 

O diálogo vai abordar o papel da Psicologia no enfrentamento ao racismo no marco da campanha : “Descolonizar Corpos e Territórios – Reconstruindo existências Brasis”, lançada pela CDH/CFP e que busca revisitar as contribuições afropindorâmicas e latino-americanas que compõem os saberes e as práticas psi.

O objetivo é debater a descolonização da Psicologia como fundamento para a atuação em direitos humanos, apresentando a problemática da colonização e seus efeitos na subjetivação e na sociedade, a fim de contribuir para um exercício profissional da Psicologia que considere as especificidades populacionais.

Fique por dentro

A campanha 21 Dias de Ativismo Contra o Racismo consiste em uma frente de luta apartidária, sem fins lucrativos e autogestionada criada por ativistas do movimento negro com a missão de pautar a luta antirracista em diferentes escalas e contextos como uma luta diária e contínua. Acesse a página da campanha e saiba mais: https://21diasdeativismocontraoracismo.com/ 

 

Todo racismo é uma forma de violência

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) reitera, neste 20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra –, seu compromisso com o combate à discriminação racial. Por isso lançou, dia 14 de novembro de 2018, a campanha “Todo racismo é uma forma de violência”, que dá voz às populações negra, cigana, quilombola e indígena. Veja as peças da campanha (bannercartaz, adesivos e folder).

Na comemoração desta data, a psicóloga Célia Zenaide, integrante do CFP, lembra a Resolução CFP 018/2002, que define que profissionais da Psicologia devem atuar segundo os princípios éticos da profissão contribuindo com seu conhecimento para refletir sobre o preconceito e para eliminar o racismo. “Profissionais não devem exercer qualquer ação de favorecimento da discriminação ou de preconceito de raça ou etnia. A Psicologia não pode ser conivente ou se omitir frente ao racismo.” A resolução do CFP diz, ainda, que profissionais não devem utilizar instrumentos ou técnicas psicológicas para criar, manter ou reforçar preconceitos, estigmas, estereótipos ou discriminação racial.

No dia do lançamento da campanha, o CFP e o Grupo de Trabalho da Assembleia de Polícias e Administração Financeira (Apaf) também realizaram o seminário “Todo racismo é uma forma de violência: reflexões sobre o racismo, políticas públicas e Direitos Humanos”, para evidenciar a Resolução CFP nº 018/2002. Assista.

CNPIR

Outro fato importante para marcar a data foi a eleição do CFP para compor a representação de organizações da sociedade civil do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) para o biênio 2019-2020. A eleição ocorreu no dia 12 de novembro e envolveu 19 vagas para contemplar representantes de organizações gerais do Movimento Social Negro; comunidades tradicionais de matriz africana e terreiros; juventude negra; LGBT negro; mulheres negras; quilombolas negros; trabalhadores negros; povos indígenas; comunidades cigana, judaica e árabe. Além dessas, havia espaço para representantes das temáticas de comunicação, educação, pesquisa, meio ambiente e saúde, vaga para a qual o CFP foi eleito, ao lado da União dos Estudantes (UNE) e da Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as). O Instituto Nacional de Tecnologia Social (Inates) ficou com a suplência.

O CNPIR é órgão colegiado, de caráter consultivo, com a missão de propor políticas de promoção da igualdade racial, com ênfase na população negra e outros segmentos raciais e étnicos da população brasileira vulnerabilizados pelo racismo e a discriminação.

O conselho é composto por órgãos do Poder Público Federal, entidades da sociedade civil e conselheiros de notório saber. Foi criado pela Lei n.º 10.678/2003 e regulamentado pelo Decreto n.º 4.885/2003.

Virgínia Bicudo

A conselheira do CFP Célia Zenaide aproveita a data para também recordar a história da psicanalista negra Virgínia Bicudo, que integrou a primeira diretoria do CFP e foi a primeira mulher a fazer análise na América Latina, a primeira estudiosa a redigir uma tese sobre relações raciais no Brasil e também a primeira psicanalista não médica no Brasil.

Representante da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Virgínia Bicudo foi invisibilizada e sua invisibilização deve-se à visibilização de outros sujeitos. Esta gramática conhecida obedece a uma lógica de dominação e poder.

Em entrevista a dois estudiosos, em outubro de 1983, Virgínia Bicudo disse que foi criada fechada em casa e levou um susto, quando, na escola, a criançada começou a chamá-la de negrinha. Ela foi atrás de defesas. Na Sociologia, buscou a explicação para as questões sociais. Na Psicanálise, proteção para a rejeição.

O Brasil daquela época ainda acreditava em paraíso racial e em discriminação relacionada à classe social.

O combate da Psicologia

A discussão sobre a Psicologia e o compromisso com a laicidade e o combate ao racismo, sexismo e LGBTfobia na América Latina pautou a atividade do Conselho Regional de Psicologia da Bahia (CRP-03), no dia 17, no Fórum Social Mundial 2018. O debate, de acordo com a vice-presidente do CRP-03, Alessandra Santos, buscou pensar como a Psicologia pode ser espaço de resistência no Brasil e na região.

O conselheiro Pedro Paulo Bicalho destacou o porquê de a Psicologia estar presente no Fórum Social Mundial 2018. Uma das justificativas, segundo ele, é o dado da pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), de 2016, que mostra que 60,8% da categoria trabalha direta ou indiretamente com políticas públicas. “A Psicologia brasileira, neste momento, é uma Psicologia voltada para as políticas públicas. Estamos no Fórum Social Mundial, porque hoje trabalhamos com essa população, porque hoje são as políticas públicas é que nos empregam.”

Pedro Paulo fez ainda um contraponto: “Essa não é, talvez, a melhor maneira de responder a isso. Porque mesmo que ainda não estivéssemos majoritariamente atuando nas políticas públicas, estar aqui faria sentido”. Isso porque, a violência que se constrói sobre negros, mulheres e LGBTs não é produzida apenas em relação à lei, “ela é construída principalmente na relação com as formas subjetivas que nos constroem e por isso nós, profissionais da subjetividade, temos relação com isso.”

E completou: “A Psicologia tem muito o que pensar, o que construir e o que produzir de formas de enfrentamento. Se nós pensarmos a xenofobia, o estado não laico, o racismo, a LGBTfobia, tudo isso se constrói a partir dos processos de criminalização. Nós, psicólogas e psicólogos, temos tudo a ver com os processos que nos violentam, que nos colocam em uma forma de desigualdade. E por isso estamos aqui”.

Novembro, mês da consciência negra

Em novembro, mês da consciência negra, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) faz uma homenagem a Virgínia Leone Bicudo, que integrou o primeiro Conselho Federal de Psicologia. A ata de sua posse data de dezembro de 1973.

Virgínia Bicudo foi a primeira mulher a fazer análise na América Latina, a primeira estudiosa a redigir uma tese sobre relações raciais no Brasil e também a primeira psicanalista não médica no Brasil.

Representante da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Virgínia Bicudo foi invisibilizada e sua invisibilização deve-se à visibilização de outros sujeitos. Esta gramática conhecida obedece a uma lógica de dominação e poder.

Em entrevista a dois estudiosos, em outubro de 1983, Virgínia Bicudo disse que foi criada fechada em casa e levou um susto, quando, na escola, a criançada começou a chamá-la de negrinha. Ela foi atrás de defesas. Na Sociologia, buscou a explicação para as questões sociais. Na Psicanálise, proteção para a rejeição.

O Brasil daquela época ainda acreditava em paraíso racial e em discriminação relacionada à classe social.

Em 20 de novembro, a sociedade brasileira afirma o Dia Nacional da Consciência Negra. A data foi escolhida por marcar o dia da morte de Zumbi dos Palmares, símbolo de resistência e luta contra a escravidão no Brasil. É também dia de lembrar Virgínia.

Se para o processo da identidade é necessário referências, trazer à tona o nome de Virgínia neste 20 de novembro faz com que nós lembremos de nossas(os) guerreiras(os) que caminharam e caminham na luta pela igualdade de direitos e pela não discriminação racial. Também dá visibilidade ao processo histórico da questão.

Relações raciais – O combate à discriminação é o principal objetivo do Conselho Federal de Psicologia (CFP) com a publicação “Relações raciais: referências técnicas para a prática da(o) psicóloga(o)”. A cartilha faz um mapeamento sobre o racismo no Brasil e também dos esforços empreendidos para sua superação. Ajuda, ainda, na compreensão do cenário, dos mecanismos acionados para reduzir e eliminar direitos humanos e do desmonte de políticas públicas.

A elaboração das referências foi solicitada pela categoria, no 9º Congresso Nacional da Psicologia (CNP 2016), no qual diversas propostas indicaram a necessidade de combater o racismo. A conselheira Clarissa Guedes explica que “o material pretende contribuir para qualificar a atuação profissional no que diz respeito à diversidade racial e ao sofrimento psíquico advindo do racismo”.

“Se pensarmos no mito da democracia racial, o caderno vem para desmistificar esse lugar”, explica a conselheira Célia Zenaide. Para ela, é necessário olhar para parcela da população que não é a minoria, mas sim a maior parte da população brasileira deixada à margem da sociedade.

Na visão do conselheiro Paulo Maldos, da Comissão de Direitos Humanos do CFP, “são ferramentas para construir resistências e caminhos e retomar mecanismos de enfrentamento do racismo”.

A psicóloga Clélia Prestes, da comissão responsável pela redação da referência técnica, enfatiza que pessoas com identidades e características psicológicas diferentes precisam ter um atendimento que considere suas especificidades. Segundo ela, quando se pensa na prática da Psicologia pautada pela raça é possível dar mais qualidade ao atendimento, a partir da equidade. O impacto da publicação é ainda maior para as mulheres negras. “A grande maioria das pessoas que procura a clínica, por exemplo, é formada por mulheres e, nos serviços públicos, por mulheres negras, então, é importante ter a prática com o recorte de raça garantido.”

Saiba mais:
Em Relações raciais: referências técnicas para a prática da(o) psicóloga(o), o CFP busca contribuir para superar o racismo, o preconceito e a discriminação.

Com informações do portal Geledés.